Edição Nº 935
Brasil, 9 de Setembro de 2010
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O CHILE RACHOU

Por Guilherme Bryan e Daniel Santini
redacao@folhauniversal.com.br


Um mês e meio depois do terremoto de 7 graus que devastou o Haiti no dia 12 de janeiro, um novo tremor de terra ainda mais forte abalou o Chile, na madrugada de 27 de fevereiro, deixando pelo menos 800 mortos, afetando 16 milhões de pessoas e danificando mais de 1,5 milhão de casas.

Com 8,8 graus na escala Richter (que vai até 10), é o quinto maior terremoto já registrado no mundo desde 1900, segundo o Instituto Geológico dos Estados Unidos.

Além do severo abalo, os chilenos ainda sofreram com pelo menos outros 150 tremores secundários, as chamadas réplicas, de magnitudes superiores a 4,5 graus (muitas registradas 4 dias depois do tremor principal), e com tsunamis (ondas gigantes) que podem ter sido responsáveis por metade das mortes, segundo o jornal chileno “La Tercera”, e que devastaram vários vilarejos costeiros e o arquipélago de Juan Fernandez, no oceano Pacífico.

O tremor, que foi sentido também na Argentina e até em algumas regiões de São Paulo, fez com que o Centro de Alerta de Tsunami do Pacífico emitisse avisos de risco de ocorrência de ondas gigantes também em outros 53 países, mas o alerta não se concretizou com a gravidade prevista.

“Acordei com sirenes por volta das 3h30, me levantei e senti que o apartamento todo tremia de uma forma aterrorizante. Corri para o quarto ao lado para buscar minha filha e, junto com minha mulher, fomos para o banheiro e ficamos os três dentro da banheira, longe de qualquer coisa que pudesse nos machucar. Tivemos muito medo”, conta o administrador brasileiro Ricardo Ciardella, de 30 anos, que mora há 8 meses na capital do país, Santiago.

Mas Santiago não foi a cidade mais afetada. O epicentro foi na região de Maule, no oceano Pacífico, a uma distância de 325 quilômetros da capital. Somente nessa área ocorreram quase 600 mortes. Um tsunami decorrente do abalo causou a morte de centenas de pessoas na cidade de Constitución.

Se na capital apenas as edificações mais antigas desabaram e a vida foi aos poucos voltando à normalidade nos dias que se seguiram ao abalo sísmico, mais ao sul do país, nos municípios próximos a Concepción (segunda maior cidade do Chile e que fica a 115 km do epicentro do tremor), o cenário era de destruição. Entre os escombros, milhares de pessoas saqueavam lojas e supermercados em busca de comida.

Nesses locais, a presidente chilena, Michelle Bachelet, decretou toque de recolher.Apesar de mais potente, o terremoto não causou tantos danos como no Haiti por causa da boa estrutura das construções, além de ter ocorrido em maior profundidade, entre outros fatores.

“Mas por ter maior magnitude, o deslocamento da placa provocou o tsunami”, diz João Carlos Dourado, professor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual de São Paulo, em Rio Claro (SP).

“Imagine um prédio balançando de um lado para o outro como se fosse um barco. É uma sensação assustadora”, descreve a enfermeira Petra Santos Castro Rangel, de 37 anos, que também estava em Santiago.

Ela foi um dos 12 brasileiros que voltaram ao País no domingo (28) no avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Até quarta-feira (3), não havia registros de brasileiros mortos na tragédia.
O terremoto do Chile aconteceu numa falha geológica entre as placas tectônicas Nazca e Sul-americana (veja infográfico na página 19), mesmo local do maior terremoto até hoje registrado no mundo, de 9,5 graus, em 1960. “Essas placas caminham cerca de 8 centímetros por ano, estão sempre em atrito e, em determinado momento, liberam energia suficiente para causar um terremoto.

Porém, o desastre provocado atualmente é bem maior do que nas décadas de 50 e 60, principalmente em função do crescimento populacional. Não dá para descartar que daqui há 3 ou 4 meses a energia que faltou ser liberada provoque um novo tremor de grande magnitude no país”, explica George Sand França, chefe do Instituto Sismológico da Universidade de Brasília (UnB).
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