Edição Nº 931
Brasil, 8 de Setembro de 2010
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Sinais na floresta

Por Guilherme Bryan
guilherme.bryan@folhauniversal.com.br


Círculos, quadrados, espirais. Figuras geométricas gigantescas escavadas no solo da Amazônia começam a chamar a atenção de cientistas do mundo todo. Segundo artigo escrito pelo geólogo e paleontólogo da Universidade Federal do Acre, Alceu Ranzi, publicado recentemente na revista britânica de arqueologia “Antiquity”, são sinais de uma civilização que habitou a Amazônia há cerca de 2 mil anos. Supõe-se que era um grupo de cerca de 70 mil pessoas, que dominava a geometria tão bem a ponto de ser capaz de realizar, com precisão, essas obras monumentais, denominadas pelos estudiosos de geoglifos. Até agora foram encontrados 255 desenhos – acredita-se que seja o equivalente a 10% do que deve existir –, todos com diâmetros ou lados de 70 a 380 metros com bordas de 4 m de profundidade e largura média de 12 m. Boa parte deles está interligada por corredores protegidos por muros de terra que funcionam como trincheiras.
Os geoglifos estão localizados em 200 sítios
arqueológicos espalhados em uma área de 270 quilômetros quadrados, que vai do oeste de Rondônia, região amazônica próxima da confluência dos rios Acre e Purus, até as proximidades da fronteira com a Bolívia, em terrenos a 100 m e 200 m de altitude.

O que surpreende os pesquisadores é o fato de marcas tão semelhantes estarem presentes em cenários diferentes. “Os geoglifos indicam a existência de sociedades numerosas, vivendo por muitas centenas de anos em ambiente
até então considerado hostil. Essas figuras podem ter abrigado vários povos ao longo do tempo, mas todos, apesar de habitarem ecossistemas distintos, tinham uma cultura em comum”, avalia Denise Schaan, arqueóloga da Universidade Federal do Pará, coautora do trabalho e presidente da Sociedade Brasileira de Arqueologia.
Segundo ela, os geoglifos podem ter sido construídos pelos ascendentes dos povos Aruaque, habitantes da bacia do rio Purus entre os séculos 18 e 19. Ainda não se sabe qual era a finalidade dessas construções, mas acredita-se que elas eram usadas em três situações: como fortificações; como forma de rebaixar o nível do lençol freático para facilitar moradia e a agricultura; e como centros de festas e atividades ritualísticas.No Brasil, os cientistas começaram a estudar os geoglifos a partir de 1977, quando foi registrado o primeiro deles nas imediações da Fazenda Palmares, no Acre. Uma das explicações para a dificuldade em descobri-los é a de que foram construídos em regiões que antes se assemelhavam ao cerrado ou à savana e que depois foram cobertas pela floresta. Assim, as misteriosas marcas apareceram à medida que milhares de quilômetros quadrados da região Amazônica deram lugar à expansão agrícola. “O desmatamento na Amazônia Ocidental foi, infelizmente, o que permitiu a exposição da superfície do solo, antes coberto pela floresta, revelando vestígios de povos pré-históricos. Como os desenhos são grandes, a visualização é melhor do alto, com a ajuda de aviões, o que demanda gastos consideráveis. Mas o “Google Earth” (programa gratuito disponível na internet) permitiu quadruplicar o número de geoglifos conhecidos sem a necessidade de um avião”, explica Alceu Ranzi.
Tanto desmatamento, porém, também ameaça os próprios desenhos, como aponta Denise: “Assim como qualquer sítio arqueológico, os locais onde essas figuras estão localizadas também estão ameaçados pelo desenvolvimento. Por isso, precisam ser protegidos. É importante que se saiba que é possível ganhar dinheiro se os geoglifos forem explorados da maneira certa, pelo turismo, por exemplo.”
A secretaria de Turismo do Acre já estuda a possibilidade de torná-los atração turística. No ano passado, o Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) indicou os geoglifos à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) para que sejam avaliados como patrimônio cultural da humanidade.
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