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Elas merecem mais |
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Por Daniel Santini e Gisele Brito
redacao@folhauniversal.com.br
Maria Aparecida dos Santos Ribeiro, de 59 anos, sustenta a casa em que vive catando papelão. “Dona Cida”, como é mais conhecida no “Plastiquinho”, conjunto habitacional construído onde antes era uma favela, na Vila Matias, zona leste de São Paulo, cuida do marido (que já sofreu dois derrames), de um cachorro e de um gato. Trabalhando como faxineira, conseguiu criar três filhos e uma sobrinha. “Foram 5 anos e 17 dias limpando uma boate no Centro da cidade. Como meu marido sofreu derrame, não dá mais. Tenho que ficar por perto, então cato papelão. É o meu trabalho”, diz.
Cida é uma das milhares de trabalhadoras que, ainda que discriminadas no mercado de trabalho, conseguem manter o sustento e o equilíbrio da família. Não é fácil ser mulher no Brasil. Mesmo realizando a mesma função que os homens, a maioria recebe salários
menores. Muitas não têm registro em carteira e poucas conseguem assumir cargos de chefia.
“A situação está melhor do que era antes, mas ainda tem muita coisa errada. Na boate eu fazia o serviço que meu sobrinho, que também trabalhava lá, não aguentava. Tinha dia que eu levantava sozinha 500 cadeiras para lavar o salão. E ele ganhava mais”, recorda Cida.
Há 1 século, a indignação de mulheres como Cida motivou protestos e mobilizações na Europa e nos Estados Unidos. Foi em meio à luta de milhares delas por condições iguais às dos homens que, em 8 de março de 1910, a alemã Clara Zetkin propôs a celebração do Dia Internacional da Mulher.
Muitos relacionam a escolha da data a um incêndio em uma fábrica dos Estados Unidos neste dia em 1857, no qual dezenas de trabalhadoras que protestavam morreram. Não há, porém, registro histórico de tal episódio.
A data virou referência e serviu de marco para conquistas importantíssimas nas últimas décadas. Hoje, o 8 de março é celebrado nas principais cidades brasileiras e do mundo, onde mulheres comemoram os avanços e pressionam por mais mudanças.
Ainda falta muito, porém, para que elas tenham as mesmas oportunidades que os homens no Brasil.
“A desigualdade começa na divisão do trabalho. A sociedade impõe às mulheres o trabalho doméstico e as atividades de cuidado, mas não reconhece essas atividades como importantes. A assistência social, por exemplo, que é uma profissão tida como feminina, é menos valorizada que a engenharia, que é uma profissão vista como masculina”, argumenta Conceição Dantas, integrante do Centro Feminista 8 de Março, de Mossoró (RN) e da Marcha Mundial de Mulheres do Rio Grande do Norte. “Isso quando a mulher não é usada para vender carros, pneus, bebidas, como se o corpo dela fosse uma mercadoria”, ressalta.
A falta de investimentos sociais, de acordo com relatos de quem estuda a discriminação no mercado de trabalho, só agrava a diferença entre homens e mulheres. “A implementação de políticas públicas ajudaria a mudar essa situação. Menos de 20% das crianças de até 3 anos têm acesso à creche, por exemplo. Alguém tem que cuidar dessas crianças, e acaba sendo sempre a mulher. Muitas deixam de trabalhar para cuidar dos filhos”, diz Sonia Coelho, da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.As diferenças não acontecem apenas no trabalho. As mulheres podem votar desde 24 de fevereiro de 1932, graças a um decreto do então presidente Getúlio Vargas, mas ainda são minoria em todas as esferas de poder do País. Na política e no Judiciário, são poucas as representantes do povo e nunca uma mulher foi eleita presidente
da República.
Não é à toa que, diferente de muitos países em que há mais equilíbrio, no Brasil a mulher não pode decidir sobre o próprio corpo em casos de gravidez. A interrupção, conhecida como aborto, é ilegal, em parte em função da pressão de setores conservadores, como a Igreja Católica.
Em um Judiciário dominado por homens, decisões retrógradas e desfavoráveis às mulheres, aliás, são comuns. Duas semanas antes de 8 de março, a 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por seis votos a três, que mulheres vítimas de agressão leve devem prestar e manter a queixa contra o marido para que o processo tenha andamento. Como muitas das agredidas se envergonham da situação ou se arrependem, o precedente deve enfraquecer boa parte dos processos. A decisão provocou protestos.
Em tal contexto, não são poucas as que sofrem dificuldades e têm que se desdobrar para
garantir a sobrevivência.
“A mulher costuma ser mais lutadora. E tem que lutar mesmo, não dá para desistir”, afirma Lúcia Maria Faria do Nascimento, de 31 anos, que, sozinha, criou quatro filhos e duas sobrinhas, todos em uma casa de um cômodo com menos de 10 metros quadrados. Com catarata, ela teve que parar de fabricar alças de sutiãs e aguarda com ansiedade a cirurgia para poder enxergar normalmente de novo. “Quero voltar a trabalhar. Quem sabe eu consigo um emprego com carteira assinada agora?”, diz ela. |
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