Edição Nº 931
Brasil, 8 de Setembro de 2010
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A falta dos heróis

Por Andrea Miramontes, Gisele Brito, Guilherme Bryan e Kátia Melloredacao@folhauniversal.com.br

Para Heloísa Chagas Maia de Camargos, o dia 12 de janeiro será para sempre uma data que mistura alegria e tristeza. É o dia do aniversário de sua filha Giovana, hoje com 6 anos, e se tornou também a data que marca a morte do marido, o subtenente Raniel Batista de Camargos, um dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto de 7 graus na escala Richter que abalou o Haiti naquele dia. “Ele acompanhava a festinha pela câmera do computador.

Quando fomos cantar o parabéns, notei que a conexão tinha caído, mas, como isso acontecia com frequência, não me preocupei. Eu não sabia do terremoto e não percebi que não foi só a conexão que caiu em Porto Príncipe”, desabafa a viúva.

Nove dias depois da tragédia, em 21 de janeiro, uma cerimônia de sepultamento em Brasília homenageou os militares com honras de heroísmo. A bandeira a meio mastro, o toque fúnebre e a salva de tiros coroou o trabalho dos “capacetes azuis”, termo pelo qual são conhecidos os soldados que servem em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) como a que eles integravam, a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em francês – saiba mais na página 10). Todos receberam a Medalha do Pacificador com Palma, concedida a militares brasileiros que, em tempo de paz, no exercício de suas funções ou no cumprimento de missões de caráter militar, tenham se distinguido por atos pessoais, com risco de morte. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimentou pessoalmente cada familiar e, na semana seguinte, defendeu o pagamento de uma indenização de R$ 500 mil por família. Disse que era o mínimo que o Governo poderia fazer.

O reconhecimento é merecido, mas dinheiro e homenagens não preenchem o vazio e a tristeza deixados por estes heróis que estavam, em sua maioria, de malas arrumadas e a caminho de casa quando a natureza mostrou sua fúria. Grande parte dos militares que morreram estava em missão há 6 meses e retornaria para casa entre os dias 16 e 30 de janeiro, em pequenos grupos. “Ele estava muito feliz porque voltaria ao Brasil em breve e poderia realizar dois sonhos: comprar uma casa e ter um filho”, conta Rosilene Adriana Detimermani, mulher do soldado Tiago Anaya Detirmani. “Quando soube do terremoto, eu e uma amiga, também casada com um ‘capacete azul’, fomos atrás de informações. Virei a noite falando com autoridades e me disseram que ele tinha apenas fraturado uma perna e que seria transferido para um hospital nos Estados Unidos. Algumas horas depois, dois oficiais do Exército, acompanhados do meu irmão, também militar, e de uma enfermeira, chegaram à minha casa. Quando eu os vi, sabia que a notícia não era boa. Me disseram ‘infelizmente o soldado Anaya não aguentou’. Não vi mais nada, desmaiei”, disse.

Como parte do contingente estava sendo substituído, no dia do terremoto uma nova leva de ‘capacetes azuis’ já havia chegado para a substituição. “Eu o deixei no aeroporto no domingo, 10 de janeiro. Ele chegou no Haiti na segunda e o terremoto foi na terça. Falei com ele no dia 12, ele estava muito contente e queria saber se estávamos bem. Foi uma conversa normal. Na hora do tremor, ele estava trabalhando. Francisco era muito feliz no Exército e principalmente com essa missão da ONU. Estamos sofrendo muito, mas sabemos que Deus o acolheu bem”, acredita Emilia Ribeiro, mulher do major Francisco Adolfo Viana Martins Filho, cujo corpo foi encontrado 5 dias depois do terremotoOs soldados que estavam lá na hora do infortúnio embarcaram voluntariamente na missão por amor à farda e por vontade de ajudar a população haitiana. Não existem relatos de militares que não estavam felizes em ajudar aquele país.

“Eu e um tio do Bruno somos militares e, desde cedo, ele mostrou interesse e amor pela carreira. Quando surgiu a oportunidade de servir no Haiti, ele se colocou à disposição imediatamente. Estava muito feliz em participar de uma ajuda humanitária e estava preparado para enfrentar dificuldades, mas nunca imaginamos que ele pudesse enfrentar algo desse tipo”, afirma o capitão reformado Alacir José Mário, pai do 1º tenente Bruno Ribeiro Mário, que completaria 27 anos em 8 de fevereiro. “Ele ia passar 1 mês de férias aqui conosco”, lembra, saudoso, o pai.

A maioria dos relatos colhidos acabou em lágrimas e dor, um dos poucos sentimentos que restam para quem ficou. “Estou sorrindo sem alegria. Essa dor nunca vai acabar. Primeiro porque ele era filho. Depois porque ele era um filho muito bom, muito atencioso, obediente. Era um ‘cabra’ super inteligente. Tinha curso superior, eu não tenho. Mas ele me consultava para tudo. Quando ele foi para o Haiti, quis saber minha opinião e eu disse: ‘Vá’. Ele ia levar paz a quem não tinha, alegria para onde se chora. Todo militar que vai para uma missão dessa envergadura fica muito feliz. E ele estava”, emociona-se o militar da reserva Amaro Augusto de Lima, pai do 2º sargento Davi Ramos de Lima, que deixou mulher e três filhos.
“Só de pensar a gente sofre. É tanta coisa que passa na nossa cabeça... Deus está ajudando a gente”, desabafa Rosania Augusto da Silva, mãe do soldado Rodrigo Augusto da Silva, que tinha 24 anos e também retornaria ao Brasil no dia 16. Ele deixou mulher e um filho de 1 ano. Abalada, a esposa não quis dar seu depoimento.

A maioria dos familiares foi avisada por militares e enfermeiros que prestaram os primeiros momentos de solidariedade, como foi o caso dos pais do sargento Rodrigo de Souza Lima, que moram na zona rural do Rio de Janeiro e ficaram sabendo da morte do filho somente na madrugada do dia seguinte ao terremoto. “Eu tinha ouvido na rádio e fiquei em pânico. Chorei desesperada. Segui as notícias e achava que o nome do meu filho não estava na lista de vítimas. Depois de tanta espera, um carro do batalhão estacionou em frente a minha casa. Quando deram a notícia, meu marido colocou a mão na cabeça como se fosse passar mal e um enfermeiro já nos abraçou na hora”, conta Maria Aparecida Queiroz de Souza Lima.Vítima civil

Quando a notícia do terremoto chegou ao Brasil, por volta das 20h do dia 12, quem tinha um familiar ou amigo em Porto Príncipe (capital do Haiti) se encheu de fé, como contou a mulher do vice-representante especial do secretário-geral da ONU no país, o diplomata Luiz Carlos da Costa. “Esperávamos um milagre e, ao recebermos a notícia da sua morte, nos demos conta, quase de imediato, que ele foi o nosso milagre enquanto vivo. Dois milagres seria pedir o impossível. O vazio que ele deixou para nós e para o mundo é indescritível e insuportável. Agora, reunidas, eu e minhas filhas (Anna Maria e Marianna) tentamos expressar a nossa dor e ao mesmo tempo a nossa admiração pelo marido, pai e amigo. Só nos resta dizer que ele viverá eternamente sorrindo, cantando, dançando, zelando pela nossa segurança e felicidade”, declarou Cristina da Costa, em comunicado emitido pela Rádio ONU. O diplomata ingressou na organização em 1969 e trabalhou em missões de paz em Kosovo, na antiga Iugoslávia, e na Libéria, na África. Ele estava no Haiti desde 2006 e foi um dos três civis a completar a lista de 21 brasileiros mortos na catástrofe.

A tragédia não abalou a convicção do Governo em ajudar o Haiti, e na semana retrasada, o Congresso aprovou o envio de mais 1,3 mil militares, que embarcarão em grupos: 900 deles viajam até o início de março e o restante até o fim do mesmo mês. Dessa maneira, serão 2.566 ‘capacetes azuis’ brasileiros ajudando na reconstrução do país caribenho e
fortalecendo a imagem do trabalho comunitário que cumprem desde 2004.

Enquanto isso, também na semana retrasada, Heloísa, viúva do subtenente Raniel, recebia das mãos de um comandante os pertences que restaram do marido, como a carteira e a aliança. “Foi um dos momentos mais dolorosos de todos esses dias. Porque eu não queria receber uma parte do que foi dele, queria que ele voltasse inteiro para nossa casa”, disse ao telefone, sem segurar a voz de choro.
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