Folha Universal

Página Inicial > Geral

GERAL

  • Texto:

publicado em 19/02/2012 às 00h00.

O câncer na gravidez

Apesar do susto inicial, mulheres que descobrem a gravidez durante o tratamento encontram na maternidade a força para lutar

Marília Medrado

marilia.medrado@folhauniversal.com.br

A notícia de que a jovem Priscila Fernandes, de 26 anos, estava grávida de 2 meses veio durante uma consulta médica, que daria prosseguimento ao tratamento de um câncer de mama. "Não sabia se chorava ou dava risada. Fazia os dois ao mesmo tempo", conta ela, que agora está com 4 meses de gestação. A novidade foi ainda mais surpreendente, pois ela já tinha recebido dos médicos a notícia de que não poderia mais engravidar e teria que entrar na fila de adoção para satisfazer seu desejo de ser mãe outra vez – Priscila já tem um filho de 6 anos.


A notícia da gravidez só aumentou as forças da dona de casa para lutar contra a doença. "Estou me tratando e desde o começo encaro a situação de forma positiva. Eu quero criar meus dois filhos e ver meus netos", diz.


Segundo o coordenador da Oncologia e do grupo de Câncer de Mama do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, Max Mano, entre gestantes, o tipo de câncer de maior indicência é o de mama e, com menos frequência, o de colo de útero, leucemia e linfoma. "É possível sim ter uma gestação saudável mesmo com o diagnóstico. É uma situação complexa, mas que pode ser administrada com cuidados básicos e acompanhamento multidisciplinar", explica. Até a 12ª semana de gestação e 3 semanas antes do parto a quimioterapia não pode ser realizada para evitar a má-formação do feto. Durante os 9 meses, a radioterapia e tratamentos hormonais também devem ser suspensos, assim como a amamentação após o parto.


Priscila afirma que a atual gestação está sendo mais tranquila do que a primeira, quando ainda não tinha câncer. "Tive hipertensão e diabetes gestacional quando tive meu primeiro filho, que nasceu prematuro. Estou me sentindo bem e disposta agora", diz ela que frequenta o ambulatório do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, que oferece atendimento especializado para gestantes com câncer. O tratamento é oferecido pelo SUS.


A gestação da pequena Lucille Maciel Valle, hoje com 8 meses, também foi acompanhada de perto pelos médicos. "Ela nasceu saudável e veio para me ajudar. É a melhor coisa do mundo", conta a mãe Elaine Lima Maciel, de 40 anos, que está na segunda fase do tratamento para vencer um câncer, também na mama, diagnosticado durante a gravidez. Assim como ela, mulheres entre 35 e 40 anos têm mais chances de desenvolver a doença. "O câncer de mama, principal neoplasia associada à gravidez, tem sido cada vez mais frequente, pela opção das mulheres em retardar a gestação", explica o obstetra Waldemir Rezende, coordenador do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Santa Catarina, em São Paulo. Segundo ele, é importantíssimo que as mães não esperem o nascimento do filho para se tratar. "O que piora a evolução do câncer na gravidez é a demora no início do tratamento", pontua.



Ainda criança, a manauense Itaciara Monteiro Coelho, de 26 anos, começou a tratar uma leucemia mieloide crônica. Durante toda sua juventude, os médicos descartavam as chances de ela ser mãe, devido ao intenso tratamento para superar a doença. Até que em 2008 ela recebeu a notícia de que esperava um bebê. "Naquele momento me senti muito forte", conta. Seu filho Ian nasceu saudável e hoje já tem 3 anos. "Ouvi-lo dizer ‘eu te amo’ me dá forças para continuar a lutar", completa. Na época, Itaciara recebeu sugestões para interromper a gravidez. "Existe o mito da necessidade do aborto para realizar o tratamento do câncer, mas a persistência da gestação e o nascimento da criança é um fator muito positivo para o aspecto emocional. É um estímulo para a vida", diz Rezende.


A preocupação de muitas mães que passam por esta situação é se o tratamento pode afetar a saúde do bebê. "Em doses adequadas e com acompanhamento obstétrico, é possível neutralizar os efeitos colaterais que poderiam repercutir no feto", diz Rezende. "O risco de má-formação é igual ao da população em geral, de 2% a 4%. Não existe dano maior. Tentamos ao máximo deixar a gestação seguir o seu tempo normal", completa Mano.


Fale Conosco
© Copyright 2011 ArcaUniversal - Todos os direitos reservados