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publicado em 22/01/2012 às 00h00.

Alvo errado

Quais são os "tiros" certos para enfrentar o crack e impedir o surgimento de cracolândias, como a de São Paulo? Para especialistas, governos dão "um tiro no pé" ao tratar a questão como caso de polícia, com balas de borracha, bombas e motos para dispersar viciados

Da redação

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Essa operação é quase de guerra e acontece num dos bairros mais antigos de São Paulo, a mais rica cidade do País. Cavalaria, bombas de efeito moral, carros, motos, sprays de pimenta e helicópteros estão sendo usados para perseguir “zumbis”. Assim são chamados os usuários de crack que vivem no centro da capital paulista por quem já teve a experiência – sempre marcante – de se deparar com cem, 200, 300 usuários da droga reunidos em grupos, envoltos em trapos, raquíticos e em transe, devido à ausência ou presença da droga no corpo, perambulando por ruas daquele pedaço da cidade. 


Bastam só 5 semanas para que um usuário de crack se torne dependente químico. Uma pesquisa da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) feita na região aponta que a maioria deles vive há mais de 3 anos no lugar estigmatizado como “cracolândia”, consumindo, cada um, mais de 20 pedras de crack por dia.



Quando qualquer droga entra no cérebro, ela se liga a receptores que liberam dopamina e serotonina, que produzem a sensação de prazer.  Com o tempo, o cérebro fica tolerante e produz mais receptores, por isso o usuário consome cada vez mais drogas. Como o crack produz uma quantidade imensa de receptores em pouco tempo, é considerado uma droga que causa maior grau de dependência. “Quando a pessoa para de usar a droga o cérebro entra em curto-circuito. As pessoas têm um desejo incontrolável de fazer uso, ficam nervosas, agitadas. É um processo químico que causa muito sofrimento”, explica o psiquiatra da Uniad/Unifesp, Marcelo Niel.


E foi justamente com a justificativa de causar “dor e sofrimento” que a prefeitura de São Paulo, em parceria com a Polícia Militar, deflagrou a caça aos “zumbis”. “A falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação”, declarou o coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira.


Profissionais da saúde, advogados e defensores dos direitos humanos chamam a ação da prefeitura de “tortura de Estado”. “O que dever ser atentado é que por trás de toda a questão existem seres humanos que não podem ser tratados como gado. Criar dor e sofrimento é tortura. Os dependentes precisam de tratamento”, diz Lucas Santos, e diretor do Instituto Práxis de Direitos Humanos.


Apesar das críticas à ação da prefeitura de São Paulo, a necessidade de criar mecanismos para tratar os dependentes químicos é evidente. Em função disso, no final do ano passado, o governo federal lançou uma política nacional de combate ao crack que previa o investimento de R$ 4 bilhões até 2014 para financiar os três eixos do programa: cuidado, prevenção e autoridade. No entanto, prefeituras e entidades civis reclamam que pouco foi feito até agora. “Temos um desenho teórico de política pública para o tratamento do crack muito bom, mas falta financiamento e menos burocracia”, aponta o psiquiatra da Unifesp.


Uma pesquisa realizada em 3.950 das 5.563 cidades do País pela Confederação Nacional dos Municípios apontou que 98% enfrentam problemas com crack, mas só em 19% há Centros de Atenção Psicossocial, a principal porta de entrada de usuários de drogas no sistema de saúde pública.


Erik Rogério Teixeira, coordenador do projeto Dose Mais Forte, da Igreja Universal do Reino de Deus, que atua junto a jovens dependentes químicos em todo o Brasil, acredita que o atendimento personalizado, focado em recuperar as esperanças do dependente, é a melhor alternativa. “A maioria dessas pessoas é empurrada para as cracolândias do País porque tiveram um sonho roubado pela própria sociedade. O que nós fazemos é oferecer amor a elas, e isso dá certo.”  O trabalho ainda envolve os que procuram ajuda em atividades esportivas, culturais e educativas. “Não adianta tirar um dia e deixá-lo com a cabeça vazia”, diz.



Juliane Priscila Nunes Correia, de 21 anos,  é uma das pessoas que se beneficiaram da ação. Apesar de viver em São Paulo, ela nunca pisou na cracolândia, mas consumiu crack durante 2 anos no bairro em que vivia, na zona sul da cidade. Uma gravidez e o conforto espiritual foram decisivos para que ela se recuperasse. “Cheguei a me prostituir para comprar drogas, ficar sem tomar banho por vários dias. A recuperação foi difícil, durante 5 meses senti a fissura. Mas eu tinha uma vontade muito grande de me recuperar”, conta.


Para Átila Robson Pinheiro, de 49 anos, coordenador regional de São Paulo do Movimento Nacional das Pessoas em Situação de Rua e ex-usuário de crack, a solução para o problema passa por ações intersetoriais que envolvam a saúde, assistência e outras áreas sociais, não só o combate ao tráfico. “Mas nada disso é feito. Eles só chamam a segurança”, afirma Pinheiro. Ele conta que o “acolhimento” que recebeu da própria família e o bom atendimento médico foram fundamentais para que superasse o uso de drogas. “Fui procurar tratamento porque sabia que aquilo me fazia mal. Os dependentes sabem que a droga faz mal, mas não conseguem parar. O médico que me atendeu entendeu minhas necessidades”, diz.


Mas profissionais preparados para o atendimento a dependentes, como o que atendeu Pinheiro, ainda são escassos, segundo Niel. “Infelizmente, falta especialização. Muitos médicos acham que ele (o vício) pode parar sem medicamentos”.  O uso dos remédios aumenta a chance de sucesso do tratamento porque o paciente tem menos recaídas, diz Niel. Segundo ele, há três medicamentos no mercado que podem ser usados no tratamento de dependentes químicos, mas só um deles está disponível na rede pública de saúde.


Interesse imobiliário seria motivo oculto da ação 


Depois de 11 dias da operação policial na região conhecida como cracolândia, no centro da São Paulo, cerca de mil pessoas de diversos coletivos e movimentos sociais realizaram no último dia 14 um protesto em forma de churrasco, com oficinas de desenho e música ao vivo, numa das ruas que ainda concentra um grande número de usuários de crack. “Isso aqui é um tapa na cara da sociedade, que acha que não é possível conviver com essas pessoas, que elas não são gente como a gente”, disse Sebastião Nicomedes, que já viveu na rua e é uma das principais lideranças do movimento das pessoas que vivem nessa situação. “O Estado deveria ter uma casa de convivência aqui, oferecer atenção para as pessoas e não chegar com a polícia”, opinou.


Os manifestantes protestaram contra a violência policial e denunciaram o suposto caráter especulativo da operação. Para eles, a motivação da prefeitura é “limpar” a região e abrir espaço para a valorização imobiliária. “Não tem nada de saúde nessa ação da prefeitura. Há claros sinais de uma ação higienista que atende à especulação imobiliária”, acredita o psiquiatra da Unifesp, Marcelo Niel.


Os dependentes se concentram em ruas de um dos bairros com a melhor infraestrutura da cidade e que será alvo da operação urbana Nova Luz. O projeto prevê a demolição de 30% das edificações do perímetro abrangido. Para isso, a prefeitura irá transferir para uma empresa privada o direito de desapropriar os moradores e lojistas dos imóveis que serão demolidos.


Urbanistas, associações de moradores e comerciantes acusam a prefeitura e o governo do Estado de querer estigmatizar o bairro como “cracolândia”, para que as empresas operadoras da concessão urbanística possam comprar os imóveis por preços baixos, construir novos prédios de alto padrão e, depois, revendê-los a valores acima das possibilidades dos atuais moradores.


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